[Crítica] O Diabo Veste Prada 2: Um vinho guardado há tempos na adega


Não sei o que se passa no nicho da moda atualmente, mas se tratando de cinema (e especificamente Hollywood), o período oscilante, onde nem sempre encontramos algo que valorize o ingresso, vez ou outra, nos é entregue o que vai muito além da nostalgia e do carinho por personagens icônicos.

Talvez o avanço da tecnologia esteja refletindo (e assustando) algo na indústria do cinema e essa onda de resgatar o passado e trazer à ativa tantos filmes que marcaram época, não seja apenas o momento presente. Já o porquê da demora em nos servir uma sequência, evoca uma voz da Miranda dizendo: "Vaaai...", e esse sentimento de “será que vale a pena” mexer em algo intacto e reunir toda uma galera depois de tantos anos, é o que acaba movendo ideias e sendo um combustível que faça muita gente querer ver um filme nos cinemas.

O nome disso é LEGADO. Que não tem muito a ver com um apego ao passado, um conservadorismo ou medo do que o futuro pode contribuir ou estragar, mas no que diz respeito ao amor por uma obra e o que ela significou para uma geração. Expressar isso no cinema só é possível quando se entende o momento e os riscos de conseguir fazer algo realmente bom, com um público que sabe os devidos cuidados ao se retornar, não para os fãs, mas para os personagens.

Após 20 anos do lançamento de seu primeiro filme, “O Diabo Veste Prada 2” (2026) chega aos cinemas não apenas em busca de ingressos, mas pra definitivamente ser um acontecimento. Com o mesmo diretor e a mesma roteirista de 2006, vemos a construção de algo original, que consegue se atualizar em meio a tantas lembranças e entregar um reencontro que beira o épico, unindo personagens que conseguiram cativar o público não pelo luxo de suas roupas, ou de suas marcas, mas simplesmente por serem humanos, seguindo um roteiro que consegue ter a sensibilidade de escancarar isso em diversas camadas. 


Baseado no livro de mesmo título, publicado em 2003 pela autora Lauren Weisberger, o mundo da moda é algo apenas de fundo quando muitos acabam se identificando com os desafios dentro de uma profissão, seja ela qual for, enquanto buscamos os nossos sonhos. Entre renúncias, prioridades, vida pessoal, puxadas de tapete, e como lidar com pessoas sem ter feito curso de psicologia, gestão de pessoas ou RH.

O senso de humor continua ácido e afiado, se superando no que seria hilário (por mais de uma vez) e conseguindo arrancar bons risos. Além de tudo, temos Miranda Priestly. Precisa de mais? A interpretação de Meryl Streep por si só, já carrega tudo. Mesmo que seja pra carregar o clima e o deixar pesado, característico da personagem, que mesmo após 20 anos continua do mesmo jeito. E por que o personagem mudaria, não é verdade? Uma das vilãs mais amadas do cinema! Mesmo que sua personalidade seja divertida apenas em um filme, claro. (“Longe de nós!” Diria Lady Gaga).

É um filme classificado como comédia/drama e que, desde 2006, já não tinha a proposta de fazer o público rir o tempo todo. Essa característica peculiar não o torna mais “fraco” dentro do gênero, muito pelo contrário! Só intensifica o equilíbrio por escolher ressaltar outros pontos da história e o desenvolvimento de seus personagens. Com participações especiais de Kenneth Branagh, Lucy Liu e Lady Gaga, e uma trama que prende nossa atenção do início ao fim em suas nuances, iremos rir, refletir, e até se emocionar. Voltamos a falar do trato com os personagens e de como essa parte emocional eleva a obra a algo maior.


Filme do ano até o momento. Mesmo que dentro de um molde onde há liberdade para se trazer, com duas horas de duração, o aperfeiçoamento, o frescor, e deixar mais uma vez seus questionamentos. Quando olho para todo esse conjunto de fatores, não consigo imaginar como "O Diabo Veste Prada 2" (2026) poderia ter sido feito de uma forma melhor. Tudo está ali. De forma grandiosa, bem editada, ritmada, e claro, bem vestida. A marca que fica é outra e somos gratos por isso.
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★★★★★ (Obra-prima | Nota: 10/10)

*Visto em áudio dublado: PT-BR


Lady Gaga - "Shape of a Woman"