[Crítica] O Agente Secreto: O Brasil e o seu senso de humor


Antes de mais nada, é necessário falarmos sobre o reconhecimento que o cinema brasileiro vem tendo no exterior nos últimos anos. Claro que, há muitos anos na verdade, vez ou outra, o Brasil já se destacava em premiações, mas hoje realmente podemos dizer que seja um dos melhores momentos para nossa sétima arte, com "Ainda Estou Aqui" (2024) abrindo as portas e conquistando, pela primeira vez na história, um Oscar pro Brasil como Melhor Filme Internacional.


Carregando esse peso e com 4 indicações ao Oscar que igualam-se ao recorde de “Cidade de Deus” (2004), o diretor e roteirista Kleber Mendonça Filho recebeu sua justiça do que ficou mal resolvido (ou interpretado) em “Bacurau” (2019). Filme que, na minha humilde opinião (mesmo que, diferente da Glória Pires, eu esteja com essa audácia de opinar), merecia muito mais reconhecimento do que o próprio “O Agente Secreto” (2025), e talvez não recebeu porque, bem...quem assistiu viu que a alfinetada nos americanos provavelmente só tenha agradado os festivais europeus.


Dessa vez, Kleber Mendonça Filho focou no próprio país, mesmo que a forma como expressa suas ideias e faz suas críticas sociais tenha sido bem similares ao visto em “Bacurau” (2019), algo que,  para mim, é onde está o problema em ambos os filmes. Mostrar pro mundo as realidades do Brasil é algo muito fácil, afinal, quem nasceu e mora aqui sabe que dá tranquilamente pra todo mundo escrever um livro autobiográfico. Inclusive, fica aqui o incentivo: Vamos escrever um livro sobre nossa história, cada brasileiro (a), e publicar na Amazon. É terapêutico.


A questão é: todo filme que mostra um problema social, tem a tendência de mostrar ao menos uma visão que direciona pra uma resolução, fugindo do que seria apenas um apelo. E não estou falando de moralismo, utopia, ou algo que mascare uma realidade que vá muito além de um povo pulando carnaval, transando no meio da rua, fazendo filho enquanto passa fome, e quem organizou a festa se enfia numa lavagem de dinheiro, não é bem isso. Seria sobre a imagem do Cruzeiro que resplandece no "jeitinho brasileiro", na corrupção, na malícia, no "uma mão lava a outra", na falta de educação e na romantização da prostituição. Tudo fazendo parte desse rótulo que todo estrangeiro gosta de ver nas telas, principalmente Hollywood. Afinal, é divertido! Principalmente com um thriller político. Ter de fundo uma “terra de ninguém”, sem lei, é perfeito pra roupagem “western”, que aqui no Brasil chamamos de CANGAÇO.


Voltando para a história de “O Agente Secreto” (2025), o filme tem 158 minutos, ou seja: pouco mais de DUAS HORAS E MEIA. Por incrível que pareça, não é cansativo assistir, por ele conseguir cativar com seus momentos de humor, algo que, inclusive, torna-o praticamente um filme de comédia e é o que verdadeiramente acaba o sustentando. Porém, a edição confusa e o roteiro recheado de subtramas, fazem com que ele perca bastante o foco e sua mensagem dramática não tenha a força necessária pra considerá-lo algo mais relevante. 


Além da ambientação setentista, tudo fica alheio a pontos inusitados que surgem aleatoriamente na história. Pontos que parecem existir somente no Brasil, vale ressaltar. Numa época em que um jornal noticiando uma “perna cabeluda” atacando pessoas foi apenas mais uma forma de camuflar algo mais sério e real. Retratando fielmente o que muitos chamam de resiliência, quando não, senso de humor.
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★★ (Regular | Nota: 5/10)