“O Mistério dos Sete Relógios” (The Seven Dials Mystery) é um dos primeiros livros publicados por Agatha Christie, em 1929 – precisamente o 10º de sua extensa lista de mais de meio século – e traz o Superintendente Battle, após “O Segredo de Chimneys”, publicado em 1925, como o profissional responsável pela investigação de um caso envolvendo política como plano de fundo e um pouco do que seria a obsessão de Dan Brown.
Em contraponto ao curioso personagem que protagoniza toda a história – Eileen Brent (apelidada de Bundle) – uma jovem rica, de personalidade forte, que perde a noção do perigo para simplesmente sair de um "ócio aristocrata" e começar a investigar um caso de forma amadora. Acredito que Agatha, ao criar esse personagem, fez uma sátira ao tédio, tentando arrumar um motivo que sustentasse a coragem feminina com a falta de sensatez. Em outras palavras, seria a representação das pessoas que caçam problemas porque não têm mesmo o que fazer da vida (e isso não tem, necessariamente, relação exclusiva com uma determinada classe social).
O livro é dividido em 4 grandes atos, que quase se desconectam entre si. Até o segundo isso não é muito perceptível, mas a transição de cenário para o terceiro ato fica uma sensação de que estamos lendo outra história e o mistério das primeiras páginas parecem ter sido esquecido. Ao chegar ao final do livro percebi que, de fato, foi esquecido ou, no mínimo, concluído as pressas.
O plot twist com o “whodunnit” é até surpreendente, mas assim como em "Morte no Nilo", o meu chute foi certeiro desde o início (mesmo que apenas com o pé direito, esqueci do esquerdo e não sou ambidestro). É uma pena que a história me perdeu em determinado momento, e diferente do livro "A Noite das Bruxas" que achei apenas fraco comparado às outras histórias da Rainha do Crime, esse possui deslizes que quase fizeram eu perder a paciência e desistir de ler até o final. A "energia da 5ª série” em personagens adultos quando tentam pregar uma peça no coleguinha de quarto não é nada comparado a Bundle se infiltrando numa sala pra espionar durante toda uma noite, trancada dentro do armário de um muquifo.
Mesmo com algumas boas surpresas que colocam a história de volta em pé e fazem, de qualquer forma, a leitura valer a pena, “O Mistério dos Sete Relógios” acaba não entrando pra minha lista dos melhores livros dessa escritora tão emblemática da literatura estrangeira. Principalmente quando lembramos quão bom é separar um tempo para regular nossa mente, sair um pouco da realidade e se entreter com um bom mistério.
Os Sete Relógios da Netflix
Fico feliz em ver tantas adaptações e histórias desse subgênero sendo lançadas ultimamente, e que bom que a Netflix resolveu investir em algo que a emissora BBC One já havia iniciado há algum tempo. Diferente da insatisfatória e esquecível adaptação de “O Cavalo Amarelo” lançada em 2020, aqui temos um exemplo até animador. Dirigido pelo britânico Chris Sweeney de “O Turista” (2022) e com um roteiro de Chris Chibnall (também britânico), acompanhamos algo além do excelente design de produção, com uma história se passando entre os anos 1920 e 1925.
Nunca vi problema na existência de liberdade criativa quando se trata de adaptações. Essa minissérie de 3 episódios conserta detalhes que no livro chegam a incomodar bastante. Bundle deixa de ser apenas uma mexeriqueira e passa a ter um motivo mais plausível para iniciar sua investigação em busca de respostas. O roteiro consegue construir um bom clima de mistério, com boa parte de sua estrutura se mantendo fiel ao livro e diálogos originais bem intrigantes. O grande erro foi a abrupta reviravolta final aparecer sem mais nem menos, deixando uma extrema sensação da falta de um cenário melhor construído ou editado, onde o tempo nos 3 episódios foi um tanto mal utilizado, mesmo com a existência de sete relógios para ajudar.
A cena do trem (que não está no livro) foi totalmente desnecessária e não contribuiu em nada para a história, com alguns momentos onde a direção também perde um pouco a mão e acaba cometendo suas gafes. O "Seven Dials" ficaria perfeito como cenário final, sem nenhum tipo de ação maior.
Em sua conclusão deixam a possibilidade para uma segunda temporada. Mas será que alguém avisou que, no caso da Netflix confirmar outra adaptação, provavelmente será de OUTRO livro? Ficando assim sem entender o motivo do final aberto.
Apesar de tudo, “Os Sete Relógios” (2026) não é uma perda de tempo. Para quem leu o livro, vemos uma Bundle melhor desenvolvida e motivada, interpretada pela ótima Mia McKenna-Bruce, que caiu como uma luva no papel (eu, pelo menos, imaginei uma Bundle idêntica a ela) e alguns outros acréscimos e mudanças positivas. Para quem não leu o livro, possivelmente irá se surpreender também, afinal, as reviravoltas estão ali, seja em qual horário for, de um jeito ou de outro.
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★★★ (Bom | Nota: 6/10)
*Visto em áudio original: Inglês | Legenda: PT-BR
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