[Crítica] Mortal Kombat 2: O desequilíbrio entre a Terra e Outworld


Troca-se o roteirista e o dilema em conseguir estruturar uma história e a deixar fluída envolvendo vários personagens entre a Terra e a Exoterra (Outworld) continua. Agora com Jeremy Slater, do reboot de “Quarteto Fantástico” (2015) e das minisséries “The Exorcist” (2016) e “Cavaleiro da Lua” (2022), substituindo a dupla de "Mortal Kombat" (2021), Greg Russo e David Callaham.

Tempo é o que não faltou. Tempo de reassistir o primeiro pra dar uma boa continuidade? Tempo para fazer muitas pesquisas na internet e se aprofundar na extensa fantasia dos jogos, extraindo somente o necessário? Quando, na verdade, a pergunta que não quer calar quando estamos diante de uma adaptação de "Mortal Kombat", é: “O que o público realmente quer ver nas telas? Apenas uma pancadaria bem coreografada? Um figurino que não pareça cosplay? Sangue? Horror? Dark Fantasy? Comédia? Fatalities? Um bom CGI? Uma história empolgante? Ou todas essas coisas juntas?”

Acredito que o desafio dos filmes de 2021 e de 2026 foi muito grande, principalmente com relação à EXPECTATIVA de um público que deseja algo muito maior do que nostalgia. Essa hype é o que ambos os filmes não souberam trabalhar, e, talvez, foi o problema que resultou numa bagunça de qualidade duvidosa, misturando pontos excepcionais a outros estranhos, que para alguns soaram inadmissíveis e dividiram a opinião de gerações diferentes por tentar agradar a todos enquanto buscava o seu eixo, não sua arcana. Quando um filme assim é feito, com tantas questões envolvendo sua produção, perde-se muito da personalidade de quem está no comando. Seja através do roteiro, ou da direção. Por isso a sensação de que atiraram para todos os lados.

O erro na divulgação empolgada se repete

Mortal Kombat 2 (2026) seguiu o mesmo padrão de marketing de seu antecessor, entregando os melhores trailers que já vi em anos. Tão bons que mostraram praticamente TODAS as cenas de maior impacto visual. Acharam que se escondessem somente os fatalities seria o suficiente para nos surpreender quando tivéssemos a experiência completa. Um grande erro não muito raro, que fica difícil formular uma opinião justa quando o problema já começou em sua divulgação. Mas somando a reação ao ver seus trailers com a decepção da experiência assistindo o filme na íntegra, é possível chegar a uma conclusão? 

Qualidades e defeitos polarizados

O que define bem “Mortal Kombat 2” (2026) é a separação entre: O fanservice com o baita visual gráfico nas cenas de luta VS. A falta de ritmo numa história sem boa conexão e timing. Se no filme de 2021 ficamos esperando um torneio acontecer enquanto um “treinamento” o substituía de forma paralela, PELO MENOS ali havia uma estrutura que ligasse a Terra (natural/físico) com a Exoterra (sobrenatural/fantasia), nos inserindo gradualmente em seu enredo, independente de alguém achar algo estranho ou não.

Johnny Cage esperando um motivo para defender a Terra em "Mortal Kombat 2"

Nessa sequência, o roteiro de Jeremy Slater simplesmente esquece de detalhes cruciais para sua continuidade, como, por exemplo, a marca que um escolhido precisa ter para lutar no Mortal Kombat. E mesmo com a Sonya fazendo um resumo rápido pro Johnny Cage ser convencido a participar de algo em outro mundo, assim, sem mais nem menos, fica difícil convencer o espectador a fingir que está tudo bem com a falta do mínimo, mesmo sendo um filme de fantasia. Isso, infelizmente, acaba atrapalhando bastante toda a experiência, que até possui bons momentos.


O prólogo que foca na história da Kitana é animador e muito bom, mas devido a correria pra se desenvolver outras partes do enredo, se torna questionável sua necessidade, já que o restante fica desordenado e com a sensação que precisava de mais tempo. O mesmo problema acontece no filme de 2021, com o embate de Hanzo Hasashi (Scorpion) VS. Bi-Han (Sub-Zero), que inclusive é o ponto mais alto e impressionante do filme, mas que talvez seria oportuno em um spin-off, não em um filme chamado “Mortal Kombat” onde deveria existir um torneio. Três qualidades técnicas notáveis de 2021 que não voltaram para essa sequência (dirigido pelo mesmo diretor – Simon McQuoid): a mixagem de som estrondosa, a trilha sonora arrebatadora e a fotografia realista para um live action


Com 2 horas de duração e muitos lutadores para participar, ficamos com 70% da história se passando na Exoterra, com um fundo verde no estúdio e uma paleta de cores saturada. Afinal, o torneio que definiria o destino da Terra (e a seriedade disso ninguém percebeu ou se importou) já havia começado e não tínhamos muito tempo a perder. Com cenas aleatórias de luta se atropelando freneticamente e um Shao Kahn implacável matando os participantes em meio a mudanças de cenários para algo um pouco mais natural? Não! Apenas para diálogos que tentam nos engambelar enquanto ficamos preocupados e cansados, querendo saber se o amuleto de Shinnok será recuperado e, enfim, alguém salvar a Terra (na verdade, a importância da Terra foi esquecida nesse filme) e conseguir derrotar o apelão do Shao Kahn.


Tá vendo! “Mortal Kombat 2” (2026) até tem uma história. O problema é a ZONA. A mescla de mundos e de motivos que se confundem e nos faz olhar para as cenas de luta e, com a exceção da princesa Kitana, não encontrar mais um bom propósito do porquê eles estarem dando a cara a tapa. Antes a estranheza fosse a liberdade criativa com o personagem de Cole Young, um pai de família lutador de UFC, descendente de Hanzo Hasashi (Scorpion) e criado exclusivamente para os filmes. Raiden continua não convencendo, de forma “robótica” tem pouca presença em cena e de liderança, e ainda o colocam numa situação vergonhosa e, no mínimo, questionável por ele ser o “deus do trovão”. As piadas de Kano foram transferidas para Johnny Cage, e a oportunidade icônica de reunir esses dois acaba sendo desperdiçada ao se tirar o brilho de um para entregar ao outro. Alguém lembra da presença forte e fria de Joe Taslim como Sub-Zero? Pois é, dessa vez até o “get over here” do Scorpion saiu mais fraco e não empolgou tanto, seja em inglês, japonês ou português.


Com um gancho necromântico para uma “parte 3”, em meio a um desfecho brega, fico imaginando o tanto de personagem que vai ficar no lenga-lenga de “ir e voltar” sem saber mais onde está: na Terra, Exoterra, em Edenia, em um Jardim do Éden ou no Quinto dos Infernos. Agora, voltando para a pergunta feita no início, é realmente muito difícil fazer uma adaptação onde existe tantas expectativas preestabelecidas, seja em relação ao jogo, a memória afetiva dos filmes noventistas ou a continuidade da proposta iniciada em 2021. A verdade é que, independente da primeira impressão que fica, os filmes “Mortal Kombat” sempre serão daqueles que, vez ou outra, vamos querer repetir a dose e, quem sabe, acabar se acostumando com suas estranhezas.
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★★ (Regular | Nota: 5/10)

*Visto em áudio original: Inglês | Legenda: PT-BR


The Immortals - Techno Syndrome 2026 (Olivier Adams Feat. Ed Boon)