[Crítica] The Carpenter’s Son (2025): Sombras no Deserto


Esse filme, com certeza, é outro que colocou meu "voto de imparcialidade" à prova. Claro, antes de tudo, estamos falando de um filme de FICÇÃO, baseado em uma escritura APÓCRIFA – O Evangelho de Pseudo-Tomé – o que ajuda muito a encararmos a história como algo apenas mitológico, não religioso/bíblico, com a figura de José, Maria e Jesus sendo retratada de forma mentirosa e distorcida dos 4 Evangelhos canônicos. Aqui, temos um exemplo que, às vezes, é difícil separar a fé de um mero entretenimento. Principalmente quando ele agride algo muito real para os cristãos, beirando o que seria tendencioso e que não tem muito a ver com um terror psicológico. 

Ficção (entretenimento) x Religião (fé)

Não é de hoje que “filmes bíblicos” tentam chamar atenção gerando polêmicas. "A Última Tentação de Cristo" (1988) de Martin Scorsese diz por si mesmo. Todos sabemos que a arte muitas vezes é livre e subjetiva. E é possível expressar sua crença (ou descrença) de uma forma elegante e inteligente, já que de forma respeitosa seja um tanto difícil. Sem a grosseria e presunção de achar que a arte secular, ideológica ou filosófica, irá influenciar, descredibilizar ou abalar a espiritualidade de alguém. 

Quando Leonardo da Vinci pintou a “A Última Ceia”, fez isso de forma pessoal, sabendo que aquilo seria entregue ao impessoal, e tudo bem. Alguns olham a obra como “sacra”, outros como “arte”, outros como “ídolo”. Tudo vai depender. Até mesmo “A Paixão de Cristo” (2004), obra-prima de Mel Gibson, é envolta em polêmicas que nos deixa na dúvida se o filme foi feito para retratar uma passagem bíblica-canônica, ou para "estigmatizar" e oprimir cristãos desavisados, que assistem a adaptação religiosa como se fosse a própria Bíblia. Temos a série e fenômeno “The Chosen – Os Escolhidos”, considerada bíblica, mas com uma liberdade criativa que deixa CLARO não fugir da linha teológica dos Evangelhos canônicos (mesmo que em um de seus episódios, “flerte” com Maria Madalena escrevendo algo passível de credibilidade, sendo apócrifo ou não). 

Além de vários filmes religiosos lançados recentemente, que mesmo contendo personagens bíblicos e dentro de uma “roupagem religiosa”, são inspirados por livros apócrifos, como “Virgem Maria” (2024) lançado pela Netflix e baseado parcialmente no Protoevangelho de Tiago, “Maria Madalena” (2018) inspirado por textos gnósticos e apócrifos, como o Evangelho de Maria, e “O Jovem Messias” (2016), esse, inspirado na Anne Rice mesmo (algo contemporâneo), em seu livro “Cristo Senhor: A Saída do Egito”, publicado em 2005, longe de qualquer julgamento e que, possivelmente, deixou os leitores envoltos em dilemas acerca do que é ficção, do que é fé, e onde fundamentar cada coisa. Daqui a pouco vão dizer que a história de "A Cabana" de William P. Young é baseado em fatos reais por ser uma nova Bíblia.

Filme de terror com Jesus adolescente


Sabemos que a adolescência é uma fase difícil para muita gente, mas o que esperar de um filme que coloca José como um descrente revoltado com Deus, Maria como uma mãe com depressão pós-parto e Jesus como um adolescente que não entendeu muito bem o que veio fazer na Terra e acaba trocando uma ideia persuasiva com satanás? Não tem outro nome pra isso. Tem? A questão é: como FICÇÃO, o filme é bom? E a resposta, por incrível que pareça, é sim. 

“Constantine” (2005) é outro filme polêmico por trazer a blasfêmia contra o anjo Gabriel dentro de uma história baseada numa HQ, pra chegar no final ainda dizer que a frase "Deus escreve certo em linhas tortas" está realmente na Bíblia (na cabeça do roteirista). Então, conseguimos entender o porquê muita gente está indo parar no inferno quando assiste filmes assim, acreditando que a ficção tem algum poder sobre a realidade. O filme deixou de ser bom? Eu pelo menos achei alguns pontos bem interessantes nele.

Dirigido e escrito por Lotfy Nathan, “Sombras no Deserto” (2025) é eficaz em construir uma boa ambientação e trazer horrores de uma forma nunca vista. A atuação (e esperamos que seja realmente uma atuação) da atriz Isla Johnston como satanás é assustadora, e a forma metafórica como Jesus “retira” um demônio de uma pessoa é bem interessante. 

Dedos enrijecidos e oprimidos em "Sombras no Deserto"

Só é uma pena o filme perder credibilidade, até mesmo dentro da ficção, afinal, pra se fazer algo significativo, tem que se ter um propósito. Nisso ele se atrapalha em alguns momentos, soa ridículo, e assim como a base de sua história, nos faz até rir. Eu sei que, para muitos, ver Jesus exercendo misericórdia sobre o demônio é algo estranho, talvez o Edward Cullen, um vampiro que renunciou sangue humano, seja um personagem que alcance redenção, mas para além de dogmas e paradigmas, “Sombras no Deserto” (2025) acaba perdendo bastante potencial dentro de sua narrativa. Ainda assim, consegue ter seus momentos no terror, mesmo se dividindo ao estúpido.
____________________________
★★★ (Bom | Nota: 6/10)

*Visto em áudio original: Inglês | Legenda: PT-BR