No período em que muitos já estavam cansados da onda de filmes de horror surrealistas, cheios de simbolismos em que, muitas vezes, nem mesmo o próprio diretor e roteirista tinham sua visão do que criaram, mas deixaram para o público tirar suas conclusões - "O Poço" (2019) - ou, quando explicavam em entrevistas que tudo era sobre um "delírio psicológico vs. realidade" - "Saint Maud" (2019) - nos fazendo, veementemente, tentar entrar na mente de quem escreveu o roteiro em busca de pontas soltas para usufruir o mínimo do entretenimento, vez ou outra, essa nova técnica da sétima arte que se iniciou em 2018 com "Mãe!", acaba nos surpreendendo com alguns exemplares - "Censor" (2021) e "Men: Faces do Medo" (2022).
De todos que assisti, esse é o que mais conseguiu utilizar dessa técnica, expressando sua mensagem e fazendo sua crítica social de forma aberta, mas sem fugir do que apresenta. Mesmo no subliminar, a forma como a história é construída expõe suas intenções, até aquelas que estão nos mínimos detalhes.
Sem reter informações do espectador em meio ao surrealismo de seu horror psicológico, o britânico Alex Garland, mais conhecido como roteirista de "Extermínio" (2002), entrega uma obra que intercala o passado de uma mulher que encerrou seu casamento de forma traumática com talvez a expressão máxima do medo em suas várias faces que alguém pode sentir pelo simples fato de ser mulher.
Raras são as vezes que o audiovisual consegue fazer um simples caminhar por uma rua escura se tornar algo que grita nas telas sem a necessidade da personagem dizer algo, passando a ser uma corrida pra chegar logo em casa. Essa sensibilidade e refino em "Men: Faces do Medo" (2022) que nos salta aos olhos, sendo, na verdade, a real proposta que todo filme deveria ter, independente de seu gênero: expressar uma mensagem através das emoções que ele causa.
Jessie Buckley não apenas entende o seu personagem, mas faz com que ele seja o reflexo de tudo o que o roteiro desejou transmitir em tela. Suas expressões, por muitos momentos, nos contam a história que vai além dos diálogos. A reflexão sobre os vários tipos de violência que a mulher sofre, muitas vezes silenciada e "tida como louca", ou quando uma situação de urgência é relativizada como parte do cotidiano, são complementos assertivos dentro do que o núcleo traz como verdadeiro medo.
Não bastasse sua mensagem, o filme utiliza do body horror a níveis extremos, e não estou falando necessariamente do nu frontal de um homem estranho no meio do mato, mas do gore mesmo. Somos envolvidos pela junção do terror, com momentos que, mesmo à luz do dia, vai gerar bastante desconforto. Achei incrível a ideia de transformar o eco da voz da personagem em um túnel, não apenas como metáfora ao enredo, mas também como parte da trilha sonora. Esse tipo de criatividade é o que nos faz olhar pra um filme e ver o quanto seria injusto ele não receber o reconhecimento que merece.
"Men" é uma palavra no plural e não está assim à toa. Longe de generalizações, causas e efeitos, o que fica é sua mensagem. Mesmo em suas intensidades, a direção não perde a elegância na forma que mostra seu palco enquanto o espetáculo de horror acontece. Com uma fotografia que contribui bastante ao lado primitivo, ancestral e assustador do homem, em choque ao período que já vivemos e que nem sempre seus limites são respeitados, sejam físicos ou emocionais, chamado de civilização.
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★★★★★ (Obra-prima | Nota: 10/10)
*Visto em áudio original: Inglês | Legenda: PT-BR
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